Geografia Geral - Agricultura

 

 

4.1. - FATORES DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA

 

4.1.1.- Agentes da produção no espaço agropastoril e industrial

Os agentes responsáveis pela produção no mercado se representam pelo trabalho, capital, terra e empresa. Cada um deles participando do processo produtivo, recebe uma renda - do trabalho é o salário, do capital é o juro, da terra (compreendendo o solo urbano e suas edificações) é o aluguel (arrendamento), da empresa é o lucro (o empresário faz a gestão do trabalho, capital e da terra ou natureza).

A terra é uma mercadoria no sistema capitalista; como tal, seu valor depende do mercado, pois quanto maior for a sua demanda, ou procura (como acontece ao solo urbano próximo da área central das cidades, ou mesmo em relação às propriedades rurais próximas aos centros urbanos) maior será o seu preço.

Próximos aos centros urbanos a tendência é de haver pequenas propriedades rurais (devido ao valor maior da terra) e de usar trabalho-intensivo (não compensa a mecanização, em face da necessidade de seu elevado investimento e isto só compensa quando a propriedade é grande e assim o retorno de capital vai ser mais rápido). A renda absoluta da terra é a que se refere a ela como uma mercadoria no capitalismo(mesmo que se deixe ela sem nenhuma melhoria, seu valor aumenta pela procura maior).

A renda diferencial da terra está relacionada à sua fertilidade diferencial (resultante de sua produtividade), à sua distância em relação ao mercado consumidor urbano (não medida prodpriamente em quilômetros, mas a relação custo-tempo, condicionada à facilidade ou não de transportes) e à disponibilidade ou não de tecnologia (ao aumentar a população é mister melhorar a eficiência da terra com mais técnicas).

Quando predomina o fator terra na produção agropastoril, dizemos que o sistema agrícola é extensivo; quando predomina o capital (investido em máquinas ou tecnologia) ou a mão-de-obra, qualificamos o sistema como intensivo por mecanização (como ocorre nos países desenvolvidos) ou por trabalho (como na Ásia Monçônica, com a rizicultura submersa ou agricultura intensiva de subsistência).

 

4.1.2. - Fatores Naturais Condicionantes às Atividades Agrícolas (climas, solos, relevo, hidrografia,vegetação)

A primeira natureza, isto é, aquela que não é criada pelo homem, exerce notável influência sobre a agricultura, de conformidade com as técnicas empregadas nela. Exemplos: custos de irrigação e de preparo dos solos desérticos; inadequação da tecnologia diminui produtividade, não compensando os custos.

 

A] Climas - influem, através dos seus elementos de temperatura e umidade, no ciclo vital das plantas (germinação, crescimento, maturação), o que explica a inexistência de agricultura nas áreas de altas latitudes próximas ao Círculo Polar Ártico, com sua baixa insolação e frios rigorosos. Há certas plantas que apenas frutificam em determinadas estações do ano como as frutas sazonais (ex.: morangos, pêssegos, figos, etc.).

Podemos distinguir, conforme as condições climáticas, dois tipos de culturas agrícolas: as tropicais (predominantes na Zona Intertropical, como o café, arroz, feijão, mandioca, mamão, abacaxi, etc.) e as temperadas (maçãs, peras, pêssegos, uvas, oliveiras). Os climas quentes e chuvosos (tipo Af, na classificação de Koppen) influem na biodiversidade das plantas, portanto há maior variedade de plantas úteis ao homem na Zona Intertropical do que nas Zonas Temperadas da Terra.

Atualmente, com a biotecnologia (pesquisas genéticas em laboratórios criando clones e sementes) se criam produtos híbridos (ex: nectarina) e adaptam-se plantas a climas distintos do seu habitat natural (ex.: trigo, soja). Mesmo assim, a diversidade de cultivos temperados e tropicais é uma das razões naturais (junto com as econômicas, evidentemente) do colonialismo europeu e americano e da divisão internacional de trabalho.

 

B] Solos - sua fertilidade natural condiciona-se aos climas, aos tipos de rochas e às vegetações. Vimos que os solos representam um manto de intemperismo, ou da ação dos agentes externos do relevo desagregando as rochas (intemperismo físico típico de climas áridos e semiáridos) ou decompondo-as (intemperismo químico, típico de climas úmidos).

Os solos aluvionais (transportados por agentes externos do relevo, como os rios, as geleiras, os ventos) geralmente são férteis, como os de várzea (no Brasil), como os situados às margens dos rios Nilo (no Egito), Ganges (na Índia), Tigre, Eufrates (na planície da Mesopotâmia- Iraque), Mekong (na península da Indochina), S. Francisco (no Brasil).

Os solos eluviais (depositados sobre a rocha matriz) de origem vulcânica são férteis, como a terra-roxa (no Planalto Meridional do Brasil) e os solos do Planalto dos Grandes Lagos (na África Oriental)- nestas áreas se fazem cultivos comerciais ( ex.: a monexportação do café era plantation no Brasil e ainda é na África).

Atualmente, à fertilidade natural dos solos sobrepõe-se sua adequação ao cultivo de gêneros agrícolas que tenham uma boa cotação de mercado. Assim, por exemplo, os solos de cerrados (savanas do Brasil) são ácidos, mas são grandes produtores de soja, que tem uma alta cotação internacional. A fim de torná-los mais adequados à produção agrícola foi feita a correção de sua acidez, através da técnica de calagem (introdução de calcário).

Para se preservar a qualidade dos solos prega-se a necessidade de práticas de caráter mecânico (ex.: curvas de nível, terraços), pedológico (rotação de culturas, adubação...) e vegetativo (ex.: cercas vivas).

 

C] Relevo - as planícies facilitam a mecanização da lavoura, que pode se apresentar sob a forma de culturas temporárias (que se renovam periodicamente, como as de cereais, leguminosas, verduras) e permanentes (de árvores ou arbustos, cujo plantio não precisa ser renovado, como a arboricultura de laranjeiras, figueiras, etc..).

Nas áreas montanhosas ou de escarpas de planaltos é mais adequada a arboricultura, pois as raízes das árvores permitem uma melhor fixação dos solos, além de reduzir bastante a lixiviação das encostas pelas enxurradas (águas pluviais que escorrem superficialmente nos solos). Mesmo assim, as árvores não devem ser plantadas linearmente em filas, mas em curvas de nível - linhas circulares de plantio, que passam pelos pontos de mesma altitude, evitando que as enxurradas se concentrem em regos descendo pelas encostas.

 

D] Vegetação - os campos e estepes constituídos de gramíneas favorecem a pecuária; os campos, porém, são muito utilizados para cultivos temporários, especialmente de cereais.

Nas florestas, em face da predominância de árvores, é mais adequada a arboricultura que as culturas temporárias. Assim, por exemplo, na Floresta Amazônica deveria ser incentivada a heveacultura (plantio de hevea ou seringueira, já nativa da mesma) em vez da pecuária ou dos cultivos temporários.

Infelizmente, como os solos das florestas de baixas latitudes apresentam-se superficialmente cobertos de matéria orgânica, procedem-se ao desmatamento e depois a agricultura, desgastando e laterizando (como se demonstrada pela cor vermelha) os mesmos, tornando-os duros, ácidos, pobres e estéreis.

 

E] Hidrografia - os rios tiveram e continuam a ter uma importância fundamental para a agricultura, não só porque formam os solos aluvionais às suas margens, como deles procedem os canais de irrigação para regar as plantas cultivadas.

 

4.1.3.- Condicionamentos Econômicos à Atividade Agropecuária

 

A - Problema da Fome no Mundo Atual

 

a) Fatores socio-econômicos: pobreza e fome.

O PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), propôs um novo meio de avaliação do desenvolvimento sócioeconômico dos países pelo IDH, ou seja, Índice de Desenvolvimento Humano (ou HDI em inglês: Human Development Index) com base em dados estatísticos de expectativa de vida, condições de escolaridade (tempo médio na escola, acesso aos níveis de ensino, PIB (per capital e total). Através destes dados pode-se chegar aos contrastes quanto ao IDH: -A expectativa de vida revela o padrão de vida das populações. A mortalidade infantil revela as condições médico-sanitárias e de renda da população.Em relação à escolaridade: o analfabetismo nos países centrais está abaixo de 10%; enquanto o acesso ao ensino médio e superior é grande.

A fome crônica, ou endêmica, representa a falta estrutural de alimentos ora quantitativamente (consumo inferior a 2.500 calorias/dia), ora qualitativamente (consumo de proteínas inferior a 30 g/dia); a fome aguda ou epidêmica ocorre por razões conjunturais, havendo uma enorme falta de nutrientes.

A fome tem como razões fundamentais as questões socioeconômicas (distribuição injusta da renda nacional, flutuações da cotação das "commodities"no mercado internacional e sua manipulação pelas transnacionais que operam na sua comercialização) e não tanto os fatores naturais e demográficos.Podemos, pois, apontar fatores estruturais e conjunturais que explicam a fome e a miséria nestes "bolsões de pobreza" e se complementam no espaço e no tempo.

 

b) Fatores estruturais responsáveis pela fome - crescimento vegetativo grande, introdução da plantation, subaproveitamento do espaço agrário, estrutura fundiária injusta, desarticulação da economia nacional.

Þ Na medida em que o crescimento vegetativo é grande, a demanda por alimentos cresce. Como as populações destes países são predominante rurais e de baixa qualificação técnica, apresentam deficiente produtividade e assim a produção de alimentos é insuficiente para o atendimento do fraco mercado interno.

Þ O colonialismo europeu introduziu a plantation nos países periféricos; sendo altamente especulativa, atendendo à racionalidade capitalista do lucro, forçando a migração dos pequenos proprietários rurais para as cidades.

Além disso tudo, a plantation, exercida em latifúndios, apropriou-se das melhores terras, diminuindo os custos de produção para o mercado externo, mas afetando profundamente a produção agrícola para o mercado interno.

Þ O colonialismo desarticulou a economia tradicional em vigor na época colonial , baseada na posse da terra pelas comunidades que preparavam de forma eficiente o represamento e a irrigação dos campos e que permitia a autosuficência das aldeias.

Þ A inserção destes países nos fluxos da economia global, dentro da divisão internacional de trabalho, é extremanente desvantajosa aos países periféricos: por produzirem pouco para o mercado interno, precisam importar alimentos, além de produtos industriais, e para tal, solicitam empréstimos aos bancos internacionais aumentando sua dívida externa. Além do mais, apresentam déficits em sua balança comercial, visto que exportam produtos primários de baixa cotação no mercado internacional e importam produtos de maior cotação. Acrescente-se, ainda, a manipulação das "commodities" pelas transnacionais.

Þ Subaproveitamento do espaço agrário na América Latina e África - no caso da América Latina apenas 0,5 hectare por habitante para uma disponibilidade de 1,6 ha/Hb. Além disto, as maiores e melhores terras estão nas mãos da aristocracia rural - a estrutura fundiária (número, tamanho e distribuição das propriedades rurais) é injusta, predominando os minifúndios, como se atesta pelo fato de que ¾ dos proprietários rurais possuem apenas 3% das terras agricultáveis.

 

c) Fatores conjunturais responsáveis pela fome no Mundo Subdesenvolvido - naturais e políticos.

Þ A agropecuária está sujeita a acidentes naturais, como as secas frequentes no clima semiárido do Sahel, os tufões, maremotos e enchentes na Ásia Monçônica, causando enormes prejuízos à sua débil economia.

Þ Na África subsaariana ocorrem frequentemente conflitos tribais internos , decorrentes da divisão politica do continente mais de acordo com os interesses colonialistas europeus.

 

B] Condições de retorno do capital no campo - Comparativamente às indústrias de bens de consumo não-duráveis e aos serviços cujos lucros revertem aos bolsos do empresário rápido, as atividades agropecuárias apresentam uma rotação lenta dos capitais investidos nelas, como demonstramos a seguir.

O controle do processo de produção no meio rural é mais difícil, devido a razões naturais (pragas, qualidade do solo) e de espaço necessário à sua prática - a agricultura exige mais terra que a atividade fabril, tornando mais laboriosas as condições de fiscalização do processo de cultivo na área (cuidado com o solo, com as plantas para evitar pragas) e quanto maior a área cultivada maiores são os custos de energia, de transportes, de água.

As mudanças sociais e técnicas no campo são mais lentas do que nas cidades, visto que a população rural é mais apegada às tradições.

Mesmo com os avanços da biotecnologia, não há um controle da sazonalidade de muitas plantas, nem do seu ciclo vital: é preciso diversificar cultivos de plantas diferentes quanto aos mesmos, a fim de se garantir rentabilidade à produção agrícola durante o ano todo.

A agricultura depende do meio ecológico e assim, por força de acidentes naturais (nevascas, geadas, secas, enchentes) pode se perder colheitas, acarretando prejuízos especialmente para pequenos e médios proprietários dos países subdesenvolvidos, que não possuem capital excedente para aplicá-lo em seguro.

Quanto à rentabilidade da atividade rural de pequenos e médios proprietários nos países subdesenvolvidos, é dificultada pela falta de uma política agrícola nacional, de abertura de estradas vicinais (secundárias) e pela ação de intermediários (chamados no Brasil de atravessadores) que impõem preços baixos na compra dos produtos no campo.

 

4.2.- SISTEMAS AGRÍCOLAS.

Os sistemas agrícolas representam o conjunto de elementos naturais e econômicos interligados pelo homem na utilização do solo; eles diferenciam-se uns dos outros no mundo em função do meio ecológico (interação de relevo, hidrografia, clima, vegetação, solos) e das condições históricas, técnicas e sócioeconômicas em que se praticam.

No sistema extensivo a produção agrícola aumenta pela expansão quantitativa de terra, daí a sua produtividade por hectare ser baixa em relação ao sistema intensivo. Neste, o rendimento por hectare é maior, ora devido à mecanização, ora ao trabalho-intensivo (como acontece nas pequenas propriedades).

 

4.2.1. - Sistemas agrícolas na Zona Temperada do Norte: Europa Ocidental, América Anglo-Saxônica, CEI, Europa Oriental e China.

 

A]- Europa Ocidental -

ð a) Características gerais -O capitalismo está sujeito a fases de expansão e de depressão, entre estas destacamos as crises de l871/80 e de 1921/30 . Com estas crises o capitalismo passa por mudanças, como o surgimento do capitalismo financeiro e monopolista depois de l870. Após a crise de l929, a agricultura européia sofreu uma modernização, apresentando as seguintes mudanças:

  • Criação de cooperativas - o primeiro país a fazê-la foi a Suécia; representando a associação de pequenos proprietários (ainda muito comuns na Europa) para comprar insumos (=adubos), diminuindo os custos e aumentando os lucros e a produtividade e condição de concorrência com as grandes empresas agroindustriais, tanto na produção como na comercialização de produtos.

  • Intensificação dos sistemas agrícolas através da mecanização, pesquisas agroveterinárias, adubação, fertilizantes (para aumentar a produção) e, ao mesmo tempo, o aperfeiçoamento da silagem), do armazenamento e dos frigoríficos. Assim, se facilita a comercialização e o equilíbrio da oferta e procura das safras agrícolas, mantendo estável o mercado.

  • Para enfrentar a concorrência das "commodities" norte-americanas os Estados europeus iniciaram uma política de subsídios à agropecuária, com a isenção parcial ou total de impostos e empréstimos a juros inferiores aos do mercado.Esta política foi ratificada pela Política Agrícola Comum, em l962, do Mercado Comum Europeu: contra ela criou-se o Grupo de Cairns (cidade da Austrália) com l4 países pleiteando a liberalização da política agrícola mundial.

  • A modernização da agricultura acarretou uma reconcentração fundiária, ou reagrupamento das pequenas propriedades, diminuindo o seu número e surgindo outras maiores com 200 a 500 hectares. A reconcentração fundiária facilita sua administração empresarial e mecanização, aumentando o poder de competição no mercado interno e externo (ex.: França).

  • Mesmo com a modernização da agricultura, os países europeus são importadores de alimentos (exceção: França), pois as terras são escassas e insuficientes para atender a demanda, , como nos Países Baixos com 23% de terras aráveis (daí a construção de polders ou diques no mar há séculos, onde se pratica uma agricultura e pecuária intensivas), nos países escandinavos (além do clima frio, a Noruega, por exemplo, apresenta apenas 3% de terras cultiváveis devido ao relevo, a Suécia só 7%, a Finlândia só 8%).Mesmo assim a produtividade/ha é grande e a PEA no campo é pequena (ex.:Holanda=6%,Bélgica=3,4%).

  • A pecuária é intensiva, de modo geral, com o gado estabulado e alimentado com ração. A técnica de pastagem zero, ou de criação de gado bovino estabulado, permitiu o maior uso de terras para a produção agrícola voltada às necessidades da população, já que a ração animal (soja, milho, sorgo) é importada a preços baixos dos países periféricos.

ð b) Formas clássicas ou tradicionais de uso do solo na Europa Ocidental: rotação trienal de culturas (ou sistema de 3 campos) e agricultura mediterrânea.

? Sistema de três campos (rotação trienal de culturas) - Surgiu na Baixa Idade Média (séculos XI - XIII) em que a terra do senhor feudal, a ser cultivada pelos vilões e servos da gleba, era dividida em 3 campos (ou folhas- daí o outro nome de sistema de afolhamento), permanecendo uma delas em pousio (=descanso, em que o gado estercava a terra) em cada ano, fazendo o rodízio destes campos, de tal forma que trienalmente (de 3 em 3 anos) apenas, os mesmos passassem a ser usados com a mesma atividade.

Com o aumento da população européia após a Revolução Industrial, houve necessidade de se usar mais intensivamente os solos, deixando de haver o pousio das terras.

Atualmente, este sistema consiste na divisão das pequenas e médias propriedades em três partes (separadas por sebes vivas, para proteger os cultivos em relação aos ventos), nas quais se executa a rotação trienal de cultivos de cereais (trigo e centeio, associados com batata para produzir álcool, beterraba-para produzir açúcar, girassol- óleo) em duas partes, enquanto na terceira se plantam forrageiras (alfafa, aveia - para alimentar o gado, especialmente no inverno), de tal modo a só se repetirem os cultivos nas 3 partes trienalmente. Veja a sequência de uso dos lotes ou partes: a,b,c (ano ? ) à b,c,a (ano )à c,a,b (ano ? ) e assim repetindo-se de três em três anos (trienalmente).

Os efeitos da rotação trienal de cultura são extremamente vantajosos aos solos e ao mercado:

è há uma policultura intensiva que não esgota os solos e diversifica mais a produção, para atender às necessidades do mercado consumidor;

è elevada produtividade agrícola por unidade de área, havendo um aproveitamento integral do espaço;

è entre as forrageiras há leguminosas, cujas raízes associam-se a certas bactérias que retiram oxigênio e nitrogênio do ar atmosférico, formando nitratos e assim adubando naturalmente os solos.

 Agricultura mediterrânea - caracteriza-se pela utilização de pastagens de montanha (campos alpinos) no verão, já no inverno os pastores descem para os vales - é a transumância. Aí nos vales, além do pastoreio das ovelhas, pratica-se a arboricultura mediterrânea (os países do sul da Europa são os maiores produtores mundiais de maçãs, peras, uvas, pêssegos, vinhos). Esta agricultura mediterrânea está cedendo lugar à transumância comercial em latifúndios produtores de trigo, batata e criação intensiva de bovinos.

 

B] América Anglo-Saxônica - sistema intensivo por mecanização

ð a) O Canadá possue terras agricultáveis apenas no sul (o SE é a área mais urbanizada e povoada) e no centro-sul (prolongamento natural e econômico das pradarias norte-americanas, com seus solos férteis). O restante do território canadense (ao norte) é dominado por climas frios e suas florestas de coníferas.

ð b) Estados Unidos - são uma verdadeira potência agrícola mundial: primeiro produtor de laranja,sorgo, aveia, soja e milho; 43% do comércio mundial de cereais (daí o poder de manipulação das commodities por suas transnacionais no comércio internacional.

è Características - Na América Anglo-Saxônica, como na União Européia, a industrialização e a urbanização dinamizaram fortemente a divisão local de trabalho (campoó cidade), desenvolvendo muito o espaço agrário. Vejamos algumas destas características da agricultura industrializada norte-americana:

  • Nas cidades formam-se técnicos e especialistas (ex.: engenheiros agrônomos); pesquisam-se novas variedades de plantas e animais (biotecnologia- ex.: o chester); imprimem-se revistas e informativos rurais; fabricam-se máquinas e implementos agrícolas, defensivos (inseticidas) e fertilizantes.

  • Pratica-se a racionalidade capitalista do lucro, em que a agricultura é mais uma atividade empresarial voltada sobretudo para o mercado (em Chicago situa-se a maior Bolsa de Commodities da Terra).

  • Aí desenvolveram-se as agroindústrias, estabelecidas nas cidades ou campo, que verticalizam a produção desde a matéria-prima até a industrialização e comercialização. Nesta verticalização objetiva-se uma racionalização das atividades para reduzir os custos, aumentar os lucros, melhorar a qualidade dos produtos e sua competitividade no mercado. As agroindústrias absorvem l8 milhões de empregados nos EUA em 3 partes interdependentes: as indústrias de insumos (=rações, fertilizantes para as fazendas), com 6 milhões de operários; as propriedades rurais (mecanizadas, com 3 milhões de empregados) e as indústrias de beneficiamento (com 10 milhões de operários, é a parte final que transforma os produtos feitos nas fases anteriores em matérias-primas para outras indústrias ou para o consumo do mercado).

  • As grandes empresas agroindustriais atualmente tendem mais à comercialização interna e externa dos seus produtos, pois é uma atividade mais lucrativa que a produção (esta pode sofrer riscos naturais).

  • A rotação de culturas é executada junto com a rotação de terras, para não depauperar os solos (cujos rendimentos decrescem depois que atingiram o máximo de produtividade, mesmo com alta tecnologia), para diminuir os problemas ambientais (a atividade agropecuária quebra a coerência dos elementos do ecossistema, daí a necessidade de aplicação de defensivos para evitar pragas), para atender mais às exigências cada vez maiores da economia de escala.

  • Quanto à estrutura fundiária nos EUA -a partir da crise de l929, começou a haver o processo de reagrupamento das propriedades rurais - o tamanho médio das propriedades triplicou de l50 hectares (década de 30) para 450 ha. (década de 80). No entanto, as pequenas propriedades norte-americanas, denominadas "family farmers", correspondem a cerca de 47% das terras exploradas, a 22,7% dos estabelecimentos rurais e ocupam l8% da superfície ocupada pelas propriedades rurais. Os latifúndios correspondem a 1,2% das propriedades rurais e só 11% da área ocupada. Além disto, as "family farmers" representam 90% da produção agrícola e 60% do seu valor no mercado norte-americano; sua tendência é de se reunirem em cooperativas.

è Principais áreas agropastoris especializadas norte-americanas - situam-se especialmente nas "prairies" ou pradarias das Planícies Centrais, onde desenvolvem-se os "belts", ou cinturões agrícolas.

  • ? Cinturão do trigo (wheat-belt) - que se divide em duas áreas: o cinturão do trigo de primavera (no centro-norte dos EUA, expandindo-se além da fronteira S do Canadá) e o de outono-inverno (na região central dos EUA). No cinturão de trigo de primavera, o inverno é mais rigoroso, em face da alta latitude, por isto plantam-se variedades de trigo com ciclo vegetativo curto, logo no início do equinócio de primavera. No outro cinturão (trigo de outono-inverno) mais ao sul do primeiro, como o inverno é menos rigoroso, as sementes de trigo são plantadas no outono e depois é colhido na primavera.

  •  Cinturão do milho (corn-belt) - localizado ao sul dos Grandes Lagos, no vale médio do rio Mississipi, até os Montes Apalaches. Aí predominam médias propriedades e seu cultivo é feito junto com a soja, a alfafa (forrageira para gado estabulado), aveia e a suinocultura (criação de porcos de forma intensiva, cabendo aos EUA o 3o lugar do mundo). Aí ao S do Lago Michigan, situa-se Chicago, centro de convergência de uma malha de transportes hidroviários, rodoviários e ferroviários.

  • ? Cinturão do algodão (cotton-belt) - no baixo curso do rio Mississipi, onde o clima é mais quente. Seu cultivo foi uma plantation na época colonial,com uma estrutura sócioeconômica baseada na escravidão negra-latifúndio-aristocracia rural (como na América Latina).Aí se planta fumo e amendoim, também.

  • Cinturão de laticínios (dairy-belt) e de hortifrutigranjeiros (green-belt) -a NE dos EUA, área tradicional mais industrializada e urbanizada e por isto predominam as pequenas e médias propriedades ("family-farmers"), que praticam a pecuária leiteira, a avicultura e a hortifruticultura em sistema intensivo. Na avicultura, as técnicas são extremamente avançadas: rações balanceadas (vitaminas, minerais, anabolizantes e hormônios para crescimento e engorda mais rápido) passando em esteiras, com iluminação artificial (para descontrolar o relógio biológico das aves e forçá-las a comer mais) e limpeza por máquinas.

  • Ranching-belt -entre as Pradarias Centrais (já ocupadas pelos belts) e as Montanhas Rochosas, cenário de criação extensiva de bovinos para corte, em laltifúndios, além de ovinos em regiões semiáridas.

  • No extremo SE dos EUA, praticam-se culturas tropicais de arroz, cana-de-açúcar e laranja (esta na Flórida). No extremo O ocorrem culturas irrigadas, facilitadas pela construção de usinas hidrelétricas nas bacias dos rios Colorado (a SO) e Colúmbia (a NO). Aí nas áreas desérticas do sudoeste (Califórnia), pratica-se o "dry-farming", que consiste no revolvimento das camadas úmidas mais profundas do solo e assim, conservando esta umidade cerca de um ano, cultivam-se algodão, legumes, frutas. A área agrícola mais notável do oeste norte-americano é o Vale Central da Califórnia, com seu clima mediterrâneo (daí ser famosa pelas culturas de peras, maçãs, pêssegos, morangos e pela indústria vinícola).

C] Comunidade dos Estados Independentes (CEI) - na antiga União Soviética, está ocorrendo desde l989, a transição econômica do socialismo para o capitalismo, com a política da glasnost (transparência) e perestroika. A primeira já se completou com a abertura política e a instalação da democracia, já a segunda (em português: reestruturação) ainda está em curso.

Toda e qualquer fase de transição é de crise política (conflitos entre grupos antes sufocados em sua expressão cultural pela ditadura estalinista e burocracia estatal), social (desemprego, máfia urbana) e econômica (a antiga União Soviética tinha um PIB de cerca de US$ 1.6 trilhões, hoje está reduzido a 1/3 disto) passando a economia agrícola socialista das sovkhozes (fazendas experimentais do Estado) e kolkhozes (cooperativas de pequenos agricultores) para uma economia de mercado, baseada na propriedade individual dos meios de produção, especialmente para as mãos de cooperativas ou de antigos políticos.

 

D] Europa Oriental (antiga parte socialista do continente sob influência soviética) - a porcentagem de terras coletivizadas aí foi menor que na ex-União Soviética, razão pela qual o processo de transição para o capitalismo ser mais rápido. Além disto, há o fato de que Hungria, Tchecoslováquia e Polônia lutaram pioneiramente contra o centralismo burocrático do PC. Hoje representam o Quadrilátero de Visegrad que pleitea o ingresso na União Européia. Ao N da Europa Oriental, como o clima é mais frio, se plantam culturas temperadas (cereais como aveia, centeio e cevada; além da beterraba); já do vale do rio Danúbio para o sul praticam-se especialmente culturas mediterrâneas de oliveira e videira.

 

E] China - das comunas populares (complexos agroindustriais coletivizados compostos por unidades sociais e econômicas autosuficientes e sob planejamento central, como é característico de uma economia socialista) restam poucas atualmente.Com as reformas liberalizantes, a partir de l984, restabeleceu-se parcialmente a propriedade privada com possibilidades de lucro no chamado sistema de responsabilidade nas unidades de administração particular.

 

4.2.2. = Sistemas Agrícolas na Zona Intertropical da Terra (América Latina, Ásia e África)

Predominam sistemas extensivos com o uso de muita terra de forma inadequada, daí ter uma baixa produtividade na América Latina e África , como ocorre com a agricultura primitiva de subsistência. Na Ásia Monçônica, entretanto, ocorre a rizicultura submersa que é uma agricultura intensiva de subsistência em pequenas propriedades, usando trabalho intensivo e de maior rendimento por hectare, com técnicas tradicionais e assim não atendendo à demanda de alimentos (razão da fome na área). Nestes países a participação da produção agrícola no PIB é grande, a eficiência da PEA é reduzida (pelo uso de energia braçal) e a maior parte da população vive no campo.

 

A] Agricultura primitiva de subsistência (também chamada de agricultura itinerante ou de autoconsumo)

a] Conceituação - É uma agricultura extensiva feita na América Latina e África com base na policultura (feijão, milho e mandioca), criação de pequenos animais (aves, porcos) e fruticultura (bananas, mamão) para o autoconsumo (=subsistência) do agricultor e sua família,com técnicas antiquadas (uso de enxada, foice, machado) e rotação de terras (daí ser extensivo) ou procura de novas terras(daí o nome itinerante). Esta agricultura é típica de lugares distantes do mercado (relação custo-tempo maior), em países ou áreas muito pobres, com frágil integração econômica da divisão local de trabalho (campo-cidade). No Brasil é chamada de roça tropical, no Caribe -milpa, na África-chitemene.É uma atividade complementar à agricultura comercial, já que esta é monocultora especializada conforme o mercado, e também porque o camponês é trabalhador temporário no latifúndio onde se faz a colheita do cultivo comercial.

b] Etapas - são o desmatamento, a capina, a abertura de aceiros, a queimada, plantio, rotação de terras ou procura de novas terras.

  • Desmatamento: feito com machado, para abrir clareiras na floresta, a fim de se cultivar na área.

  • Capina: carpir ou capinar é cortar e retirar do solo as gramíneas e arbustos com a enxada e a foice.

  • Abertura de aceiros: isolamento, através de valas (chamadas de aceiros) no solo, em volta da área a ser plantada, a fim de impedir o alastramento do fogo ( que vai se atear nos restos de gramíneas e arbustos), para outras áreas da floresta.

  • Queimada: é a fase mais conhecida; o fogo ateado nas moitas de capim e arbustos secos destrói os microorganismos do solo (úteis na formação da matéria orgânica, resultante das folhas) e transforma os vegetais em cinzas (cujo potássio dá uma falsa ilusão de maior fertilidade do solo para o agricultor).

  • Plantio: executado no solo já preparado nas etapas anteriores. Após um certo tempo (no máximo uns 15 anos) a terra está cansada e não há outra alternativa senão buscar outra área para plantar, onde se executam as mesmas etapas, daí o nome de agricultura nômade ou itinerante. Quando não há possibilidade de se buscar novas terras, se retorna à original: faz-se, pois, uma rotação de terras.

c] Efeitos ambientais - Onde houve a agricultura de autoconsumo, a terra esgotada não permite mais a riqueza vegetal da floresta primária; no lugar dela surge a capoeira (um sub-bosque, ou mata secundária, já que o solo cansado não permite a recuperação da floresta original).

Após sucessivas culturas nesta rotação de terras com técnicas primitivas como as descritas acima, os solos estarão de tal modo exauridos que a única vegetação a brotar é o sapezal, que são gramíneas, que ao chegar o inverno seco, se incendeiam naturalmente pelo atrito de suas hastes ressequidas (o clima é tropical com chuvas de verão- Aw). Nos solos, devido ao calor do incêndio natural, abrem-se pequenas fissuras, que aumentam pela lixiviação das enxurradas, formando crateras chamadas de voçorocas. Estas voçorocas ocorrem não só pela erosão das águas das chuvas sobre os solos desprotegidos de cobertura vegetal, como também pelo seu afundamento em face da presença de lençóis freáticos ..

O desmatamento acarreta maior erosão dos solos, transportando-se mais sedimentos para os leitos dos rios provocando o seu assoreamento, ficando mais rasos, tornando as enchentes mais desastrosas e dificultando a sua navegação. Em relação aos climas a evaporação torna-se mais intensa, tornando as chuvas irregulares e iniciando um processo de desertificação. Os solos endurecem como rocha (é o laterito).

A laterização dos latossolos tropicais deve-se ao clima. Ocorre pela infiltração das águas pluviais nos solos, onde reagem com os minerais dissolvidos nos mesmos, formando especialmente os óxidos de ferro e alumínio. Quando a água sobe nos solos junto com estes óxidos, ela evapora, mas os óxidos concentram-se na superfície do solo, formando carapaças chamadas de lateritas, de cor avermelhada, conferindo uma acidez acentuada aos mesmos.

 

d] Relações com o mercado -Há três circunstâncias que condicionam a inexistência da agricultura de autoconsumo.

 A agricultura de subsistência deixa de existir na medida em que há uma dinâmica de mercado interno (divisão local de trabalho) e facilidades de transporte, diminuindo a relação custo-tempo. Assim, por exemplo, nas cidades do interior das Regiões Sudeste e Sul do Brasil, os pequenos proprietários rurais estão perfeitamente integrados ao mercado urbano, onde tornam-se feirantes.

? Quem fica no campo praticando esta agricultura extensiva de baixa produtividade, recebe uma renda tão pequena de suas colheitas, que precisa complementá-lo com trabalhos temporários em épocas de colheitas nos latifúndios.

? Quando ocorreu a recessão no Peru e na Bolívia, na década de 80, tal agricultura nos altiplanos andinos foi uma alternativa para os desempregados urbanos; isto ocorre também hoje no Brasil (parte dos "bóias-frias" são de ex-operários de fábricas e desempregados).

 

B] Afolhamento - praticada no Golfo da Guiné (África Ocidental, conjuntamente com a plantation), nos altiplanos andinos, no Sudão e em certas áreas do México. Consiste numa rotação de terras, em que se alternam a agricultura e pousio com pecuária (geralmente após as colheitas agrícolas, faz-se a criação de gado, em que a terra descansa e simultaneamente é adubada naturalmente com o esterco do gado).

 

C] Plantation

a) Conceito e localização - A plantation é uma agricultura comercial de produtos tropicais para exportação, introduzida pelo colonialismo europeu na América(desde o século XVI), Ásia e África (desde o século XIX)

b) Características - A plantation é montada no tripé do latifúndio, monoexportação e muita mão-de-obra; na época colonial, esta era escrava, mas hoje usa-se força de trabalho barata e temporária (na época de safra).

É uma agricultura especulativa, voltada para o lucro no mercado externo que tem maior poder de compra; é uma monoexportação no sentido de que há um "produto-rei" (ex.: o café representa 80% das exportações de Ruanda e Burundi e 96% das mesmas em Uganda) e outros produtos agrícolas de importância secundária. Sabemos que isto torna os países agroexportadores muito vulneráveis em sua balança comercial.

A plantation está muito ligada ao colonialismo moderno e contemporâneo, de forma direta (como no Caribe, pela ação da Del Monte, antes chamada de United Fruit, dos EUA; como na África e SE da Ásia, pela ação dos europeus) ou indireta (pela presença de uma aristocracia rural detentora do poder político e econômico, ligada e interessada mais no mercado externo, ciosa de seus privilégios, como aconteceu no S dos EUA e ainda ocorre no Brasil.

c) Consequências - Já estudadas anteriormente: grande dependência econômica dos países que a praticam; estratificação social em duas classes (a aristocracia rural e a dos camponeses); estrutura fundiária injusta); ocorrência da fome e intensificaçãodo êxodo rural (melhores terras para o cultivo de agroexportação); desertificação dos solos e climas (devido ao uso exaustivo da terra); a proletarização dos camponeses (já que se tornam trabalhadores assalariados nas colheitas).

 

D] Rizicultura submersa ou jardinagem do tipo oriental (agricultura intensiva de subsistência)

a) Conceito e localização - É o cultivo de arroz (=rizicultura) nas planícies aluvionais formadas pelos rios da Ásia Monçônica (ou Meridional) e em terraços nas montanhas, com trabalho-intensivo, em pequenas propriedades. Até 1/3 da haste do arroz tem que ser submerso parcialmente pelas água, que podem ser canalizada a partir dos rios ou coletada das chuvas de monções nos terraços.

Aprendemos que as monções são ventos periódicos, que ora sopram do Oceano Índico (área anticiclonal) para o S da Ásia (na época de verão o continente está mais quente que o mar, daí ser uma área ciclonal) - são as monções de sudoeste ( chuvosas de verão); ora sopram da Ásia para o Oceano Índico, durante o inverno (daí serem monções secas ou de nordeste- do outono à primavera).

Cerca de 80% da produção mundial de arroz concentram-se na Ásia Monçônica, sendo 56% na China e Índia. As principais áreas de plantio são as planícies aluvionais formadas pelos rios Azul e Si-Kiang (na China); Mekong e Vermelho (Vietnam); Salwen e Irrawadi (Mianma); Baixo Ganges (Índia) e nas ilhas da Indonésia e Filipinas. O cultivo com técnicas arcaicas, o alto CV (aumentando a demanda de terras e alimentos) e os riscos naturais (tufões, enchentes, maremotos) fazem da Ásia Monçônica um dos "bolsões de pobreza".

b) Características

  • É feita em pequenas propriedades pelo sistema intensivo por mão-de-obra, com técnicas cuidadosas, manuais e tradicionais, mas eficientes, daí o nome de jardinagem do tipo oriental. Este uso intensivo de trabalho humano é o fator explicativo das altas densidades demográficas da Ásia Monçônica. O plantio é feito por clãs familiares de camponeses, vivendo em aldeias, respeitando valores tradicionais.

  • Como a área é muito povoada, crescendo a demanda de alimentos, usam-se as terras de planícies com solos aluvionais bem como se pratica o cultivo do arroz em terraços nas encostas de montanhas. Para ter maior produtividade o cultivo de arroz precisa estar parcialmente alagado; deste modo os terraços possuem dupla finalidade: coletar as águas pluviais de monções de verão que descem pela montanha abaixo e evitar a erosão das encostas, já que, ao descerem, sua força erosiva é amortecida pelos terraços.

  • Como há escassez de terras e é mister aproveitá-las intensivamente, o arroz é plantado em viveiros ou sementeiras, pouco antes da colheita. Assim, tão logo esteja colhido e debulhado (=separação dos grãos) este cereal, suas mudas já estão no tamanho adequado nas sementeiras para o transplante nos solos das pequenas propriedades. Isto permite maior aproveitamento da terra e duas colheitas anuais na mesma parcela de terra. O plantio é feito de julho a outubro, durante as monções chuvosas de verão.

  • A irrigação ou alagamento parcial e controlado do arroz durante o seu crescimento, bem como a drenagem do terreno, quando ele está chegando ao fim do seu ciclo vegetativo, são feitas manualmente e de modo natural (coletando as águas das chuvas ou dos rios) ou artificial (construindo-se canais de irrigação nas planícies).

4.2.3.- Espaço Agrário nas Regiões de Clima Árido (BW) e Semiárido (BS)

 

A] Oriente Médio

a) Planície da Mesopotâmia, nos oásis e trechos do litoral da Arábia Saudita praticam-se culturas irrigadas com técnicas tradicionais e seculares, usando muita mão-de-obra nas poucas terras férteis.

b) Israel : aplicam-se técnicas modernas como a irrigação por gotejamento, cobrindo-se os canteiros das plantas com plásticos para impedir a perda de água por evaporação durante o dia, nos kibbutz (propriedades comunitárias concedidas pelo Estado com objetivos agroindustrial e de defesa militar nas fronteiras com países árabes vizinhos) e nos moshavei-ovdin (cooperativas onde a propriedade da terra é do Estado, mas a sua administração e exploração se fazem pelas famílias).

Os kibbutzin passam por transformações profundas atualmente quanto ao gerenciamento da produção (antes era centralizada e planificada, hoje voltada para livre iniciativa e a economia de mercado), às atividades econômicas (antes era só a agricultura, hoje é agroindustrial, fazendo parcerias até com empresas privadas; os serviços passaram a ser terceirizados), à força de trabalho (antes toda comunitária, agora não só recebendo trabalhadores externos, como os residentes no kibbutz exercendo funções fora).

 

B] Saara - cultivos irrigados nos oásis. Estes ocorrem em função do afloramento de lençóis freáticos no solo. Aí cultivam-se verduras, legumes e tâmaras. A água que emerge no solo deve ser usado de forma racional, através de um sistema hidráulico denominado "foggara", que consiste na canalização subterrânea da água (para restringir sua evaporação) em tubos de barro cozido. Dessa rede de canais de argila cozida saem poços - a água é distribuída em certas horas do dia para os usuários e para irrigação das plantas.

 

C] Comunidade dos Estados Independentes (CEI) - Estepes do Casaquistão e Usbequistão (Ásia Central)

A L e S do Mar de Aral, onde desembocam os rios Amu-Darya e Syr-Darya, criam-se ovinos e pratica-se a cultura irrigada de algodão. Devido ao fato de que nos climas áridos e semiáridos há mais evaporação do que precipitação pluvial, o meio ecológico é muito frágil e fragilizou-se mais ainda com o desvio das águas daqueles rios para irrigação, diminuindo seu débito fluvial no Mar de Aral e ocorrendo o processo de desertificação-, este mar está diminuindo desde 1960 (1/3 de sua extensão original e ½ da profundidade). O Estado no Usbequistão desempenha papel importante na transição para o capitalismo.

 

4.3.- OBJETIVOS DA AGRICULTURA

Quanto à finalidade a agricultura pode ser de subsistência, comercial, socialista e científica.

 

4.3.1. - Agricultura primitiva de subsistência - recapitulando, é uma policultura extensiva, usando energia braçal e instrumentos como a enxada, a foice, o ancinho; feita em pequenas propriedades familiares na América Latina e na África.

 

4.3.2.- Agricultura comercial - destinada ao mercado consumidor urbano, aplicando-se técnicas modernas e sendo especializada conforme as tendências deste mercado. Quando é feita com o objetivo de atender ao mercado externo, tem como finalidade principal o lucro, como a plantation, passa a ser uma agricultura especulativa (especular=ganhar lucro) - geralmente é feita por empresas agroindustriais.

 

4.3.3.- Agricultura socialista - enquanto no capitalismo a propriedade dos meios de produção é privada e a economia é de mercado (com as flutuações de preços pela oferta e procura, ou pela atuação de monopólios e oligopólios); no socialismo, a propriedade dos meios de produção é do Estado ou da comunidade e a economia é planificada pelos mesmos. Estes cultivos socialistas são ainda encontrados na CEI (kolkhoz e sovkhoz), na Europa Oriental, na China (fazendas especializadas e comunas) e no México (os "ejidos").

Na CEI as terras das sovkhozes estão sendo vendidas ou arrendadas à iniciativa particular; os cooperativados das kolkhozes não seguem mais a planificação governamental (deliberada pela centralização burocrática de um partido único como havia antes) e sim as normas do mercado. Agora, a propriedade dos meios de produção (máquinas, ferramentas, celeiros, armazéns) ainda é coletiva; uma parcela da produção é para o autoconsumo das famílias, a outra parcela (evidentemente, a maior) é vendida e os lucros são proporcionais à participação de cada cooperativado das kolkhozes.

Na Europa Oriental os governos estão devolvendo os meios de produção aos antigos proprietários ou vendendo-os aos novos ricos (geralmente participantes daquela burocracia que centralizava o poder no Partido Comunista) ou, ainda, fomentando a formação de cooperativas.

Na China, atualmente, há três tipos de organização do espaço agrário:

  • Famílias especializadas - donas de seus negócios(mas não das terras) comercializando o que produzem além das cotas estabelecidas pelo Estado; elas representam cerca de 1/3 da produção agrícola chinesa.

  • Fazendas estatais - em áreas pioneiras (como a oeste árido e semiárido), funcionando com base em trabalho assalariado, mas de acordo com metas fixadas pelo governo central.

  • Comunas - perderam suas características anteriores à política atual de descentralização, pois são cooperativas de pequenos agricultores.

No México, há a propriedade coletiva chamada de "ejido", que é uma aldeia comunitária (de origem pré-colombiana), onde as famílias trabalham em comum e tiram o sustento da terra de forma solidária. Os "ejidos" representam 50% das terras, mas sofrem a pressão das empresas agroindustriais ( são as "haciendas" ou laltifúndios produtores de algodão, can-de-açúcar, café), dos intermediários (que lucram, comprando por preços baixos os seus produtos, vendendo-os mais caros no mercado- no Brasil chamam-se "atravessadores") e do caciquismo (mandachuvas ou tutumumbucas que têm uma ascendência política em cidades do interior, como os coronéis do NE do Brasil e cobram uma taxa pela venda dos produtos destes camponeses).

 

4.3.4.-Agricultura Científica - É a agricultura moderna praticada nos países centrais europeus e anglo-saxônicos, caracterizada pelo uso da mecanização (tratores, colheitadeiras e outros implementos agrícolas), adubação, uso de corretivos nos solos, de defensivos agrícolas (para combater pragas preventivamente), pesquisas biogenéticas (através de clonagem e hibridismo criam-se novas variedades de plantas e animaism melhor adaptados a meios ecológicos distintos do seu habitat natural). Além disso, há a introdução de métodos de gerenciamento industrial e criação de infraestrutura de comercialização (silos, armazéns, frigoríficos, transportes) em especial nas transnacionais agroindustriais. Enfim, é a agricultura mais ligada à Revolução Científica e Tecnológica, que ocorre desde a década de 70 e protagoniza a nova Revolução Industrial.

 

4.4.- EVOLUÇÃO E INOVAÇÃO NOS SISTEMAS AGRICOLAS

A] Inovações Agrícolas - Sua finalidade é a mudança nas formas de uso e de ocupação dos solos. Elas manifestam-se no espaço agrário pela adoção de novos insumos, equipamentos, técnicas (curvas de nível, rotação de culturas) e mesmo na reconversão da atividade agrícola praticada (como da lavoura para a pecuária).

B] Modernização Agrícola - é resultante das inovações citadas acima, como produto da Revolução tecnocientífica. Ela transforma os modos de produção, tanto em suas forças produtivas (=conjunto de força de trabalho e os meios materiais de produção) como nas relações sociais de produção (entre os proprietários dos meios de produção e os trabalhadores rurais e urbanos). No capitalismo, por exemplo, o modo de produção favorece as classes dominantes, daí se dizer que no Brasil a modernização é conservadora.

A modernização trouxe, por um lado, novas profissões e padrões de consumo; dinamizou o fluxo de relações nacionais e internacionais e organizou uma nova divisão internacional de trabalho - enfim, criou novas máquinas e instrumentos de trabalho e de lazer. Por outro lado, a modernização alterou a distribuição setorial da população ativa (a terciarização nos países centrais), tornou mais grave o problema do desemprego em escala planetária, aumentou a competitividade das empresas e flexibilizou o trabalho.

No espaço agrário a modernização ensejou a concentração fundiária e, assim, os conflitos pela posse da terra nos países periféricos. No mundo, surgiram problemas ecológicos, como a destruição dos ecossistemas, erosão dos solos pela intensividade da produção, surgimento de novas pragas, contaminação dos produtos agrícolas pelo uso inadequado de defensivos agrícolas e a desertificação dos climas e dos solos.

 

4.4.1.- A Revolução Verde e a Biorrevolução

A] Conceitos- A Revolução Verde representou a introdução de técnicas de modernização agrícola em alguns países subdesenvolvidos, tais como sementes selecionadas, fertilizantes, defensivos agrícolas. Já a Biorrevolução consiste na aplicação da biologia molecular com o objetivo de criar novas sementes, além de adoçantes artificiais, enzimas, proteínas vegetais, leveduras.

B] Características - A Revolução Verde foi feita por instituições públicas do porte da FAO e contribuiu para trocas de experiências e idéias sobre novas variedades de insumos e plantas (especialmente trigo, arroz, milho) na década de 60 na América Latina e Ásia, para tentar solucionar o problema da fome, em face da explosão demográfica que estava ocorrendo. Já a Biorrevolução foi patrocinada especialmente por transnacionais bioquímicas, desde a década de 70, investindo em produtos agrícolas e farmacêuticos através de biotecnologia.

C] Consequências -

a) Revolução Verde - primeiro houve aumento da produtividade agrícola, mas as espécies novas de trigo e milho, tinham menor valor nutritivo e eram mais sujeitas às pragas (tecnologia inadequada, pois foram criadas em países centrais de clima temperado). Os camponeses que não tiveram colheitas suficientes para saldar suas dívidas, relacionadas à compra de sementes e equipamentos, foram à falência. Enquanto isto, latifundiários beneficiaram-se com os investimentos de organismos internacionais. Mais tarde os projetos da FAO foram encampados pelas transnacionais, a fim de aumentar o mercado de consumo de seus produtos.

b) Biorrevolução - atendeu mais à expansão de empresas agroindustriais e não ao mercado interno dos países subdesenvolvidos; além disto, os produtos biotecnológicos estão concorrendo com os tradicionais, retirando-lhes os seus mercados (ex.: adoçantes x açúcar), aumentando a oligopolização da indústria química e farmacêutica a nível mundial e fortalecendo o neocolonialismo.

 

4.5. - FRENTES PIONEIRAS

As frentes pioneiras são áreas sem dono que atraem migrantes provenientes de outras regiões, onde está havendo dificuldades de posse de terras, em face do crescimento demográfico e desemprego.

A ocupação das frentes pioneiras pode ser espontânea ou estimulada pelos governos, que precisa criar condições de infraestrutura para que a área de atração não fique estagnada (ex.: créditos, legalização das terras). Exemplos: conquista da Sibéria pelos cossacos; conquista do far-west pelos pioneiros (Lei Homestead Act norte-americana doava terras); imigração de colonos italianos e alemães para o Planalto Ocidental Paulista (dinheiro arrecadado pelo governo em leilões de terras eram aplicados na contratação destas viagens e, por outro lado, estavam havendo as lutas pela unificação da Itália e Alemanha).

 

4.6..- REFORMA AGRÁRIA

Na América Latina, onde ocorre uma brutal concentração fundiária, há necessidade de uma democratização da terra, transformando as relações de produção entre as classes sociais diretamente envolvidas nela - isto é o que chamamos de Reforma Agrária.

Toda e qualquer propriedade, mesmo no sistema capitalista em que ela pertence à iniciativa privada, deve ter uma função social, isto é, deve ser usada de forma integrada e racional, preservando o meio ambiente e respeitando a legislação trabalhista dos países. Não é isto o que acontece nos países latinoamericanos.

A exclusão da posse da terra a milhares de camponeses tem levado a conflitos rurais- o mais famoso foi o chefiado por Pancho Villa e Emiliano Zapata, no México (1914); no Brasil houve a formação das Ligas Camponesas (década de 60) e atualmente o MST (Movimento dos Sem-Terra).

A Reforma Agrária implica na consciência e vontade política das classes dominantes em aceitar a idéia da função social da propriedade e o direito do confisco das terras ociosas, de acordo com o interesse público. Ela não consiste, simplesmente, em desapropriar latifúndios improdutivos e assentar camponeses em suas terras, mas, sobretudo, na criação de uma infraestrutura de estradas secundárias (para escoar a produção ao mercado urbano), em assistência técnica e créditos subsidiados pelos governos

A reforma agrária diminui o êxodo rural e as necessidades de mais infraestrutura nas cidades- portanto repercute na Reforma Urbana; além disto, ela proporciona emprego para 3 pessoas diretamente no campo, recebendo um salário maior que na cidade e assim aumentando o mercado interno consumidor e a maior oferta de alimentos e, enfim, resolveria o problema da estrutura fundiária injusta ( concentração de terras nas mãos da aristocracia rural) dominante na América Latina.