Geografia do Brasil - Urbanização

 

 Metropolização

O modelo de desenvolvimento adotado no Brasil a partir dos anos 1950 e a formação de um mercado nacional integrado levaram a processos encadeados de metropolização e de interiorização urbana e demográfica. Inicialmente, ocorreu uma metropolização acelerada, nucleada no crescimento de algumas grandes capitais, mas que, em seguida, perde impulso diante da multiplicação de cidades pequenas e médias, e de uma nova metropolização, agora disseminada por inúmeros espaços urbanos menores.

 

As regiões metropolitanas

A expansão industrial acelerou o crescimento de I algumas cidades, principalmente capitais, para as quais afluíram os maiores investimentos e as atividades mais modernas, transformando-as em importantes pólos de desenvolvimento e de atração populacional. Com isso, formaram-se aglomerações urbanas com mais de um milhão de habitantes, chamadas de cidades milionárias.

O gráfico a seguir mostra a multiplicação das cidades com mais de um milhão de habitantes, refletindo o processo de modernização e a tecnificação da economia e do território brasileiro.

Com o objetivo de facilitar o planejamento nas grandes aglomerações urbanas do país, foram criadas por lei federal, em meados da década de 1970, as regiões metropolitanas. Estas são, portanto, regiões de planejamento governamental, que se caracterizam pela reunião de diversas cidades numa grande mancha urbana, marcada por

integração de atividades, forte concentração populacional e grande dinamismo econômico.

 

 

 

No início, foram instituídas nove regiões metropolitanas, cada qual polarizada por uma grande capital: Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. Essas áreas urbanizadas tiveram forte crescimento nos anos 1960 e 1970, mas esse crescimento entrou em desaceleração a partir da década de 1980.

Embora as primeiras regiões metropolitanas tenham diminuído seu ritmo de crescimento, os fenômenos de conurbação não cessaram, atingindo outras cidades, na medida em que atividades industriais e urbanas se dispersavam por outras áreas do território nacional. Pela Constituição de 1988, os estados assumiram a prerrogativa do reconhecimento legal de regiões metropolitanas. Com isso, ocorre uma nova metropolização, mais formal que prática, causando um considerável aumento do número de regiões metropolitanas. Assim, em 1999, elas já eram 17, no ano 2000, o total chegou a 23 (quadro abaixo). Hoje, certamente, o número é maior.

A Baixada Santista e a região de Campinas estão muito ligadas à Grande São Paulo, com a qual formam um eixo macrometropolitano comandado pela capital paulista.

 

REGIÔES METROPOLITANAS

 

Nome

Número de municípios

População residente

Município principal

1.

São Paulo

39

17 878

703

São Paulo

2.

Rio de Janeiro

19

10 894

156

Rio de Janeiro

3.

Belo Horizonte

33

4 819

288

Belo Horizonte

4.

Porto Alegre

30

3 658

376

Porto Alegre

5.

Recife

14

3 337

565

Recife

6.

Salvador

10

3 021

572

Salvador

7.

Fortaleza

13

2 984

689

Fortaleza

8.

Região Integrada de

Desenvolvimento do

Distrito Federal e Entorno

23

2 952

276

Brasília

9.

Curitiba

25

2 726

556

Curitiba

10.

Campinas

19

2 338

148

Campinas

11.

Belém

5

1 795

536

Belém

12.

Goiânia

11

1 639

516

Goiânia

13.

Baixada Santista

9

1 476

820

Santos

14.

Grande Vitória

6

1 425

587

Vitória

15.

Grande São Luís

4

1 070

688

São Luís

16.

Natal

6

1 043

321

Natal

17.

Maceió

13

989

182

Maceió

18.

Norte-Nordeste Catarinense

19

926

301

Joinville

19.

Florianópolis

22

816

315

Florianópolis

20.

Londrina

6

647

854

Londrina

21.

Vale do Aço

4

563

073

Ipatinga

22.

Vale do Itajaí

16

538

846

Blumenau

23.

Maringá

8

474

202

Maringá

Fonte: IBGE. Atlas nacional do Brasil. Rio de Janeiro, 2000; Idem. Censo Demográfico 2000.

 

A interiorização urbana e demográfica

A partir da década de 1980, em virtude da desconcentração econômica já analisada em capítulo anterior, a urbanização do território brasileiro assume novo papel: as cidades pequenas e, sobretudo, as médias passam a apresentar índices mais elevados de crescimento em comparação com as grandes concentrações citadinas, particularmente as nove regiões metropolitanas então existentes.

Assim, aumenta o número de cidades médias, que assumem papel importante na estruturação do espaço geográfico nacional. Em 1980, havia no país 33 cidades na faixa entre 200 mil e 500 mil habitantes e 14 na faixa entre 500 mil e um milhão de habitantes. No ano 2000, passaram respectivamente a 66 e 17. Por outro lado, de 1980 a 1991, apenas duas novas cidades ingressaram na faixa de mais de um milhão de habitantes: Manaus e Goiânia. De 1991 a 2000, nenhuma. Veja os mapas abaixo.

Por sua vez, em conjunto, as nove regiões metropolitanas cresceram, de 1940 a 1970, a uma taxa média anual de 4,5%, de 1970 a 1980, a taxa foi de 3,8%; de 1980 a 1991, de 2%; na década seguinte, de 1,3%. Como se pode ver no gráfico da página seguinte, as regiões metropolitanas representavam, em 1960 e em 1970, mais de 40% de toda a população urbana do país,

de 1980 a 1991, caíram para menos de 30%; hoje, no entanto, graças ao reconhecimento de mais de uma dezena de novas regiões metropolitanas no país, representam quase a metade dos brasileiros que vivem em espaço considerado urbano.

Verifica-se, portanto, que a urbanização no Brasil caracterizou-se, de início, por forte concentração humana junto às cidades milionárias, dando origem às grandes regiões metropolitanas. Posteriormente, acompanhando o processo de desconcentração econômica, a urbanização pautou-se sobretudo pela multiplicação de pequenas e médias cidades, configurando também uma desconcentração populacional no país. De fato, na medida em que outras regiões, além do Sudeste, passaram a atrair capital produtivo, também outras cidades cresceram mais que as regiões metropolitanas até então existentes e vieram a se tornar também regiões metropolitanas, embora com população bem mais modesta, não milionária.

Não se pense, porém, que as metrópoles originais estejam perdendo importância na dinâmica econômica e social do país. Elas continuam sediando as grandes em presas de todo tipo, que exercem sua influência sobre o território nacional por meio dos sistemas de informação, comunicação e transporte.

A interiorização demográfica também pode ser atestada pelo fato de a população das capitais estar crescendo mais lentamente que a população do país. De 24% do total da população em 1991 caiu para 23% no ano 2000.

 

Os padrões de urbanização, com os processos de metropolização e interiorização urbana e demográfica, concentração e desconcentração econômica, estão direta mente ligados ao ritmo e alcance do processo de modernização do país. Nas últimas décadas, conforme a economia e o mercado se integravam, a modernização generalizou-se, incorporando novas áreas urbanas e agrícolas. Hoje, podemos dizer que quase todo o Brasil se modernizou e que a maioria da população brasileira está integrada aos sistemas de produção, consumo e informação. A grande produção

industrial, o variado comércio e os serviços bancários já alcançam populações que vivem em lugares longínquos, sempre com o apoio das empresas de publicidade que difundem os padrões de consumo. Veja a foto à esquerda.

No entanto, como a modernização não ocorre de maneira uniforme, pois é seletiva e excludente, ela revela dupla face. De um lado, propicia desenvolvimento e riqueza aos segmentos territoriais, econômicos e sociais por ela incorporados, cujos beneficiários ingressam nos ativos circuitos de produção e consumo e passam a desfrutar de um crescente conforto material. Por outro lado, a modernização tem aprofundado os contrastes existentes no país, aumentando as diferenças entre ricos e pobres, seja regiões ou lugares, seja segmentos sociais ou pessoas.

 

 

A especialização urbana

Como já vimos, no processo de desconcentração das atividades econômicas, as cidades especializaram-se em determinados ramos ou setores que propiciavam maior produtividade com menor custo.

As grandes cidades especializaram-se na administração das atividades econômicas e na produção de inovações de todos os tipos (administrativas, tecnológicas, de consumo e comportamentais), enquanto as outras cidades especializaram-se na produção para o mercado. Assim, por exemplo, a indústria estratégica (aeronáutica e bélica) desenvolveu-se em São José dos Campos; a indústria mecânica, em diversas cidades do interior paulista, como Piracicaba e São José do Rio Preto; a indústria petroquímica, em Camaçari, no Recôncavo Baiano; a indústria calçadista, em Franca, São Paulo, e sobretudo nas cidades do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul. Veja mapa abaixo:

 

 

 

Brasil, um país urbano

A expansão de novas formas capitalistas de produção atingiram tanto as áreas urbanas quanto as áreas rurais, que foram se integrando gradativamente aos principais circuitos da produção econômica.

Conforme desenvolvia-se no campo uma produção comercial voltada para as necessidades da cidade, como alimentos, matérias-primas e excedentes exportáveis, difundia-se também o trabalho assalariado e expandia-se o mercado consumidor.

A produção rural incorporou as inovações tecnológicas produzidas na cidade, como os avanços da biotecnologia e os telefones celulares; trabalhadores rurais passaram a viver em cidades, como acontece com os chamados bóias-frias; moradores do campo trabalham em atividades não-agrícoIas, que se desenvolvem na zona rural, como o turismo e a prestação de serviços; a população que se dedica às atividades do setor primário assimilou os padrões de consumo urbanos e também se transformou em compradora de produtos industrializados (foto a seguir). A própria cultura popular típica das zonas rurais converteu-se em objeto de consumo, difundido pelos principais agentes da indústria cultural sediada na cidade. Um exemplo é a música sertaneja pasteurizada, que se tornou campeã de venda em todo o país.

 0 Brasil rural tradicional está desaparecendo e sobrevive apenas nas áreas mais pobres, que apresentam uma economia desequilibrada, em que a população não tem renda suficiente para integrar-se às novas formas de consumo e não há capital suficiente para impulsionar a modernização da produção.

 

A integração urbano-agrícola

Para avaliar esse novo país com fidelidade, pode-se partir da concepção de Brasil urbano e de Brasil agrícola. 0 Brasil urbano desenvolve-se sob o comando das atividades terciárias (comércio, prestação de serviços) e secundárias (indústria de transformação), e sua população vive em cidades. Apesar de funcionar segundo os interesses das atividades tipicamente urbanas, esse Brasil também é marcado pela importante presença de atividades econômicas tradicionais, como o artesanato. Contém, ainda, elementos tipicamente agrícolas, como os cinturões verdes e as novas hortas urbanas, que abastecem as populações das grandes regiões metropolitanas e produzem alimentos para outros núcleos urbanos. Grande parte das verduras consumidas em Belém do Pará, por exemplo, é produzida no cinturão verde de São Paulo (foto a seguir). 0 Brasil agrícola apresenta uma vida econômica comandada pelos interesses das atividades do setor primário, mas integra-se plenamente às principais formas de produção urbanas e apresenta elementos marcadamente urbanos (foto ao lado). O setor primário brasileiro absorveu, nas últimas décadas, todos os tipos de modernização que possibilitaram a expansão da produção agrícola e pecuária. A produtividade aumentou e o setor integrou-se aos principais mercados consumidores nacionais e internacionais. Essa modernização, como vimos, foi produzida nas cidades, onde se concentram a pesquisa científica e a atividade industrial, que deram suporte à mecanização da agricultura e à incorporação dos principais avanços da indústria química e da biotecnologia.

Brasil urbano e Brasil agrícola são, em resumo, elementos de uma única realidade, que se constituiu a partir da aceleração do processo industrial e é comandada pelos interesses das atividades urbanas, visando a plena integração da economia brasileira ao mercado mundial globalizado.

 

A hierarquia urbana brasileira

O conceito de hierarquia urbana está baseado na noção de rede urbana, um conjunto integrado de cidades que estabelecem relações econômicas, sociais e políticas entre si. Em tais relações, algumas cidades predominam e exercem influência sobre outras, produzindo um sistema de relações hierarquizadas no interior de cada rede urbana.

O mapa abaixo, referente à população urbana das macrorregiões brasileiras, indica que a população urbana já predomina em todas as regiões do país. Nos estados em que a modernização econômica é mais expressiva, a população rural corresponde a uma minoria em relação ao total. O Censo de 2000 revela que o Nordeste, apesar de possuir a maior percentagem de população rural (31 %), teve um significativo aumento de sua população urbana no período 1991-2000 - 10%. O Centro-Oeste, com uma população rural menor (13,3%), foi a região que apresentou o maior aumento percentual da população urbana- 12%. Confirmando o processo de desconcentração, o crescimento do Sudeste foi praticamente nulo e, no Sul, o índice ficou em pouco mais de 2%.

 

As mudanças aceleradas no padrão de urbanização produziram pelo menos duas diferentes avaliações da hierarquia urbana brasileira: uma tradicional e uma recente. A avaliação tradicional está baseada no denominado modelo industrial, que dá prioridade à relação estabelecida entre as diferentes cidades a partir dos fluxos de mercadorias e de serviços, a avaliação recente apóia-se no chamado modelo informacional, concentrando-se na relação entre as diferentes cidades a partir dos fluxos administrativos e de informações.

 

0 modelo industrial

Segundo o modelo industrial, as cidades não podem viver isoladas umas das outras, mas precisam estabelecer um intercâmbio de produtos e de serviços.

A idéia de hierarquia, nesse caso, está associada à dependência dos centros urbanos menores em relação aos centros maiores, que polarizam a rede urbana à qual estão integrados. Apresentam uma economia mais diversificada e oferecem maior variedade de mercadorias e de serviços às cidades menores. Ali concentram-se os sistemas bancários, os grandes centros de abastecimento, lojas de departamentos, shopping centers, sistemas de distribuição de produtos industrializados, distribuidoras de veículos ou de máquinas agrícolas, hospitais, escolas e universidades.

Quanto maior o centro urbano, mais diversificada é sua infra-estrutura econômica e maiores as suas possibilidades de coordenar os principais fluxos de mercadorias e de serviços, influenciando as outras cidades da sua rede. Na hierarquia urbana brasileira, a liderança das diferentes redes urbanas cabe às metrópoles, que polarizam o conjunto das redes urbanas nacionais ou a rede urbana de grandes regiões. O país tem duas metrópoles globais - São Paulo e Rio de Janeiro - e sete metrópoles nacionais: Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Salvador, Fortaleza, Curitiba e Brasília.

De acordo com esse modelo de análise, São Paulo deve ser considerada a grande metrópole global, por polarizar a rede urbana de todo o território brasileiro, inclusive a de outra metrópole global, o Rio de Janeiro.

 

Há, ainda, as chamadas metrópoles regionais, que exercem influência significativa sobre a região em que estão localizadas. É o caso de Manaus, Belém e Goiânia.

Na hierarquia urbana, há os centros regionais, abaixo das metrópoles regionais, com as quais se complementam e polarizam a rede urbana de regiões menores. Nesse grupo estão incluídas, por exemplo, as cidades de Ribeirão Preto, Londrina, Campo Grande e Teresina.

Abaixo dos centros regionais encontram-se os centros sub-regionais 1 e os centros sub-regionais 2, que polarizam uma rede urbana formada por pequenas cidades, as cidades locais. Veja o mapa na página anterior.

 

0 modelo informacional

As avaliações do processo de modernização econômica resultaram na formulação de um novo modelo de hierarquia urbana, que corresponde a um avanço em relação ao modelo industrial e que contribui para um melhor entendimento da rede urbana do país.

De acordo com o novo modelo, apesar de persistirem bolsões de pobreza e atividades econômicas tradicionais, o Brasil já apresenta a sua dinâmica social e econômica comandada pelos fluxos de informações.

A implantação de modernos sistemas de transportes e de comunicações reduziu as distâncias e possibilitou a

desconcentração das atividades econômicas, que se difundiram por todo o país e hoje são coordenadas a partir de diretrizes produzidas nos grandes centros nacionais e internacionais.

Segundo o modelo informacional, São Paulo é a metrópole mundial brasileira que exerce controle sobre os principais sistemas de comunicação que difundem as inovações por todo o país, através dos meios de comunicação. É a partir de São Paulo que as atividades realizadas no território nacional são integradas aos principais circuitos da economia internacional. Nessa cidade, estão localizadas as sedes das grandes empresas e bancos, que administram e financiam as atividades econômicas dispersas pelo território nacional, mesmo a grande distância. Veja o mapa abaixo.

São Paulo é considerada, portanto, a metrópole informacional. Essa liderança foi conquistada ao longo das últimas décadas e atraiu profissionais altamente qualificados de todas as regiões do país; a cidade apresenta atualmente a maior concentração de cientistas, engenheiros, administradores, especialistas em finanças, artistas, esportistas, profissionais da área de comunicações e publicitários do Brasil.

 

O Rio de Janeiro, também de acordo com esse modelo de análise, é considerado metrópole nacional, assim como as metrópoles regionais do modelo industrial (foto da página seguinte). Isso porque também elas vivenciaram a modernização dos sistemas de telecomunicações e suas atividades econômicas se especializaram, transformando-se em pólos de influência nacional. Veja o mapa acima.

As cidades pequenas e médias concentram atividades que dão suporte à produção rural, como os profissionais especializados, o comércio de insumos e maquinário agrícola, os centros de transportes e de distribuição de produtos para a agricultura e a pecuária.

Atualmente, essas cidades não se relacionam apenas com os centros maiores aos quais se subordinavam na antiga hierarquia urbana. Estabelecem relações diretas com toda a região em que se localizam e, às vezes, com o exterior, como acontece, por exemplo, com as cidades das modernas áreas produtoras de cítricos do estado de São Paulo (Bebedouro, Matão) e de calçados no Rio Grande do Sul (Novo Hamburgo).

Desse modo, observa-se uma ruptura com a hierarquia urbana tradicional e a formulação de um novo modelo de relações, muito mais complexo e adequado ao quadro social e econômico do Brasil contemporâneo.

A expansão da Internet, com a ampliação do chamado comércio eletrônico, tende a subverter em parte a noção de hierarquia urbana, na medida em que um número crescente de usuários e empresas negociam diretamente entre si, comprando e vendendo produtos e serviços cada vez mais diversificados, independentemente de distâncias físicas e do porte das cidades em que estão sediados.